A DESPEDIDA
Dia 26 de fevereiro de 2009. Um mês após arrancar os queridos dreads da cabeça.
Íamos em direção ao Pontal, mais especificamente à Barra, eu e Tom. Já passava das duas da tarde, pois caímos no sono. Com uma grande fome e sem fósforos para o cigarro, partimos com a sacola de dreads. A decisão de lançá-los ao mar/mangue fora tomada muito antes de cortá-los, estava pois, realizando um sonho de que eles ficassem para sempre em um lugar feliz que não em minha companhia, modéstia a parte.
Passamos antes na vila do Pontal, mas a Associação de Mulheres estava fechada e a fome teve que ser esquecida por mais um bom tempo.
Para chegarmos à Barra enfrentamos alguns, que pareciam milhares, metros de areia que afundava mesmo com a pisada mais leve, que cansaço! Nem olhávamos para o fim da ilha, pois a todo instante os olhos estavam voltados para a areia na busca de uma mais dura, haja batatas da perna... A chegada então foi triunfal, o encontro do mar com o mangue de uma violência que eu nunca antes presenciara e de beleza dessas difícies de achar . Pode parecer imaginação, mas foi o que vi; ondas triangulares que chegavam a espirrar água alto, muito alto. As cores que normalmente fazem-se distintas entre os dois, agora eram uma só.
O Tom, mais corajoso foi ver até onde poderíamos entrar para de uma vez por todas despedirmos para sempre do cabelo. Foi indo, indo, indo, até mais ou menos a cintura. Minha vez, eu o segui com certo receio de encontrar um buraco gigante, cair e ser levada pelas águas sabe-se lá pra onde (minha mania de imaginar tragédias). Mas entrei, eu, a sacola, os dreads e o Tom.
Um a um, os quarenta e tantos rolos de cabelo de origem rastafari deixavam a sacola, haja braço... Caíam nas águas e sumiam. Até que se foram todos e a sacola azul ficou vazia, apenas com aquele cheiro tão característico, que já não faz mais parte de mim.
O mar e o mangue estavam tão fortes ao se encontrarem que levaram os dreads para longe, segundo imaginamos, e de fato durante o tempo que ficamos por lá descansando de tudo aquilo, nenhum voltou à margem, nenhunzinho.
Voltamos cheios de fome e sentimentos de missão cumprida e sonho realizado. Agora todo aquele cabelo há anos cultivado (não cuidado), muito amado por mim, mas que pesava um monte, agora é do mar, e meu desejo ex-secreto é que voltem para a Jamaica.
quinta-feira, 5 de março de 2009
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
tenho estado sem inspiração alguma, não sei se pelas novas distâncias pela nova faculdade que ainda não começou ou simplesmente por estar desinspirada mesmo. Mas hoje, bem hoje, noitei que o quase mês que me separa da última postagem fez mais que necessário um novo escrito catado aqui no limão. Por onde então começar? Pelo dia bonito que faz lá fora e que aqui dentro do apartamento não muda nada? Talvez o humor, é acho que o humor é variável como o tempo de São Paulo. Dia sim dia não o tempo fecha e fica tudo cinzão. quando o cinza é o dia sim, o sol está no dia não. Ô sol, que saudades. Não hoje, hoje a saudades é de outras coisas, falta de gente que mal partiu e já rompe a alegria de vez em quando. Despedidas são um desastre, sempre perde-se uma palavra pelo caminho, um beijo e abraço a mais que não foram dados, mas como era a despedida, não tem jeito. E já me contradizendo, o jeito é não dar jeito mesmo. Nota-se claramente a falta de inspiração, a minha tirou férias, espero que não tenha ido tentar a vida no sul e volte logo para nos tornar mais completos eu e o blog, se bem que pensando assim, o blog nunca será completo, uma vantagem ou desvantagem dessa nova entidade; o blog; sempre incompleto.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Estive em Israel e não visitei a Palestina. Tive medo de olhar e vê-los como quem mata a gente cá e ainda de ser olhada como judia que mata a gente de lá. O olhar não pode ser resumido. Tenho medo da síntese que resumi todo um problema de mais de mil anos-mas que um dia chegou a não exisitir- a uma guerra sem valores humanos. Lógico, qual a guerra que possui valores humanos?Parece que por lá, o tempo não passou. E eu já achei que pudesse passar, mas hoje não acho mais. Junto com aquele tanto de gente, morre a minha esperança. Triste e brega, mas verdade
Certa vez passou-se comigo coisa fora dos padrões. Andava por aí um tanto desmantelada, desacordada, não olhava mais para frente, nem para trás, apenas "secava" o chão. E não é que aconteceu o improvável: apaixonei-me por uma espirro! Mais que isso, por uma assoada de nariz.
Imagino que o leitor deva achar raro sentir o que eu senti por algo tão desamoroso. O fato é que foi assim, e disso já não posso me livrar. Mas não pensem vocês que foi quaisquer assoadas que assistimos pelas ruas, pelas casas e pelo mundo inteiro a fora. Encantou-me o ruído estrondoso e desavergonhado, não posso mentir e dizer que sim, que acho um barulho agradável, afinal quem é que não prefere qualquer nota musical? foi exatamente isso, o que era já deveras atraente, no caso a própria moça e não seu doce resfriado, ficou ainda mais ao lado daquele assôo.
Um assôo envolvente, perdição de todos os meus dias seguintes.
Imagino que o leitor deva achar raro sentir o que eu senti por algo tão desamoroso. O fato é que foi assim, e disso já não posso me livrar. Mas não pensem vocês que foi quaisquer assoadas que assistimos pelas ruas, pelas casas e pelo mundo inteiro a fora. Encantou-me o ruído estrondoso e desavergonhado, não posso mentir e dizer que sim, que acho um barulho agradável, afinal quem é que não prefere qualquer nota musical? foi exatamente isso, o que era já deveras atraente, no caso a própria moça e não seu doce resfriado, ficou ainda mais ao lado daquele assôo.
Um assôo envolvente, perdição de todos os meus dias seguintes.
O Vendedor de Melancias
Nós, jovens desse novo século, temos plena consciência de que os sábados pela manhã são momentos de sono sagrados. Minha mãe, jovem do século passado, não tem como óbvio esse fato. Resultado: sou acordada às 10:30hs de todos os sábados da minha ainda não tão longa vida.
Costumávamos ir à feira que sempre chamei de "feira de pinheiros", mas a verdade é que fica bem no meio da Vila Madalena, por onde tradicionalmente passo às sextas-feiras à noite. Pois então, íamos sempre à feira da vila madalena. Nesses tempos passados eu me contentava com um pastel e um copo grande de caldo de cana, com limão, é claro. Os tempos mudaram, os preços subiram e aquela feira de bairro, pequena, acolhedora, e dona do melhor pastel, foi deixada para trás por mim e minha mãe.
Logicamente não deixamos de comer verduras e frutas, simplesmente passamos a ir ao CEASA, nunca pensei no significado da sigla, quem sabe quando eu acabar de contar meu causo já o tenha descoberto. O CEASA é grande, bem grande, o pastel não é tão bom, não que eu já tenha provado, mas eu sei que não é e não quero provar. Algumas coisas lá me irritam muito. Diferente da minha pequena feira, que tem o chão molhado apenas na frente dos peixes e carnes, o longuíssimo CEASA possui água em todo o seu decorrer. Aquela água que se mistura com o cocô das tão constantes pombas que cercam o lugar, e molha minhas calças e meus nem sempre muito limpos dedos do pé.
Voltando ao ponto das pombas, são inúmeras e ficam lá, em cima daquela enorme estrutura de concreto, olhando-nos comprar nossas comidas mais saudáveis, esperando pelo momento certo de mirar nossa cabeça ou a sacola cheia de verdes, e pimba. Um desastre.
Às vezes minha mãe inventa de comprar flores, adoro flores, mas elas ficam bem no final daquele enorme sambódramo sem arquibancada, já perto do gigantesco nome da Coca-cola no meio da favela, do outro lado do rio. Ah, já ia me esquecendo, tiraram o escrito, lei do prefeito, à beleza da cidade, não achei muita diferença não. Foi em uma dessas vezes que quando voltava das flores em direção às frutas e depois às verduras, que vi aqueles frutos enormes. Quando estava em Israel, eles me lembravam o Brasil, hoje, já de volta, lembram-me Israel.
Pois aquele país tão longe, logo saiu da minha cabeça e deu lugar ao moço encarregado de vender as melancias. Uma obra de arte. Sem dúvida alguma a figura mais bem feita que já encontrei. Não costumo apegar-me a tais qualidades, mas de qualquer forma, não custa nada relatá-las. Tem a cor mais bonita de todas, negro bem negro, alto, forte, parece ser forte em muitos sentidos, e lindo, lindíssimo. Como acontece de vez enquando comigo, apaixonei-me à primeira vista.
Sigo frequentando o CEASA. Meus sábados de manhã não servem para descansar e tampouco para deliciar-me com o pastel e o caldo de cana da minha pequena feira da vila madalena, mas contento-me em passar pela banca de melancias e olhar, mesmo que por poucos segundos o meu amor platônico... o mais masculino de todos. Meu vendedor de melancias.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Coisa louca me passa quando eu percebo as coisas. É como descobrir depois de muitos passos que se está sozinha tendando impedir que os bandeirantes avançem no assassinato de indígenas. Coisa louca. Admito que nunca havia olhado o "empurra-empurra" com aqueles olhos de ressaca (com a licença da Capitu, pois a ressaca nesse caso não se trata do mar).
Assim perdi a mochila:
dançei, pulei, embriaguei toda a minha lucidez
juro que foi com ternura que a instalei em algum lugar
e ela ficou a minha espera como sempre, guardando-me lá dentro
Pois dessa vez, não fui buscá-la.
abandono.
foi assim que me perdi naquela sexta-feira
Assim perdi a mochila:
dançei, pulei, embriaguei toda a minha lucidez
juro que foi com ternura que a instalei em algum lugar
e ela ficou a minha espera como sempre, guardando-me lá dentro
Pois dessa vez, não fui buscá-la.
abandono.
foi assim que me perdi naquela sexta-feira
Lá na Enseada

foto do theófilus
das idéias
De uma cachaça com a folha dessa planta
tomei um gole pra provar que a vida é boa
De uma cachaça com a folha dessa planta
tomei três goles pra provar que a vida é boa
Dormi no mangue e boiei até o Pontal
quando me vou da Enseada eu passo mal
Quero viver pra sempre lá,
onde o mangue encontra-se com o mar
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